sábado, 6 de novembro de 2010

sombralguma

tentei sorrir pelo tempo disponível
trocava de pele cada instante em que a mente se acalmava
mesmo sentindo insensato o apelo da procura
continuava

tornar a sorrir pelo tempo
e disponível refazia cada ato
comentava o caminho da censura
e voltava

repetia

repetia que ser disponível pelo tempo
é sorrir a mente trocando cada instante pela pele
refazendo em cada ato o frescor da compostura
verdade

nem menos verdade que a tortura
é o tempo que se leva prá sorrir,
quando certo é o fim do sofrimento
capaz de arrancar da dor
o alento

tentava sorrir por todo o tempo
desde que começava a zoar,
força do vento roçava minha orelha
e trazia à minha mente ouvido
o alimento

o alimento dos olhos é a sombra
porque quando a retiramos é que a fome vem
cantada ou desmaiada pelo oculto
a sombra é o alimento do olhar
ainda bem

consegui sorrir por tempo o todo
e o olhar iluminou a descensura
tocou com o vento a mente meu ouvido
cantada a sombra foi-se ao tempo meu,
desconhecido

verdade sem nenhuma formatura

e sigo

sorrindo

trago até meus olhos teu umbigo
e faço o sol nascer sem sombra alguma

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Navegante

Como está?

Hoje foi uma sexta-feira que ainda não acabou. Conjugo meus tempos porque já faz um ano que não escrevo e me misturo neles.

Recebi pela manhã uma ligação, confirmação de um trabalho. Esperava por ela e por ele desde o último dia 11/11. Do portal surgiu viagem múltipla sem sair do lugar, mais este paradoxo flutuante.

Vou trabalhar num lugar chamado Mistral. Dia 11 do mês passado olhei nos olhos a Monalisa, que me falou sobre ele, esse trabalho, mundo flutuante, cidade submersa no paraíso da modernidade.

Vou trabalhar num cruzeiro. É um navio de 216 metros de comprimento por 28,8 metros de largura máxima. Nele cabem 1700 passageiros, e junto comigo vão trabalhar mais 669 pessoas. O navio tem 624 cabines para pessoas de todos os gostos que aceitem pagar um pouco caro para um passeio de 3, 7 ou 11 dias pelo mar, visitando portos e outros lugares interessantes da Vontade Moderna.

Deve ser louco esse lugar.

Lá eu vou trabalhar 12 horas por dia todos os dias por no mínimo 6 meses, das 7 da manhã até as 23h da noite, que totalizam 16 horas, e o sono que faltar vou encaixar nessas outras poucas horas de sobra.

E por que vou trabalhar num navio de cruzeiro?

Bem, acho que cansei de tentar fazer as coisas aqui, sabe? Trabalhei duro e honestamente o ano todo, ganhei 2 calotes, mais de uma dúzia de promessas de trabalho, e saí com um prejuízo estimado de mais de 5000. Sem contar o fato de ter ganho um pouco menos de três mil reais durante os onze meses de trabalho desse ano, acho que o principal motivo de eu ir viajar é que minha qualificação profissional como filósofo, educador, comunicador e agroecólogo não está à altura do país, e por isso percebo que devo ir embora. Acho que no navio vou conseguir manter melhor minhas condições básicas de sobrevivência no mundo, mundo moderno.

Longe de parecerem com o que se chama de "justiça" na cidade grande, o trabalho no navio será penoso, duro, extenuante e no fim das contas talvez recompensador. Os relatos das pessoas que conheci me dizem isso, e meus relatos espero que digam também, para concordar e viver.

Mas além da delícia que deve ser viajar por pelo menos 6 meses numa cidade flutuante de 6000m2 arrumando camas e limpando banheiros, creio que ver de vez em quando o sol nascer e se por no oceano será maravilhoso. Tem também a parte poética da diversidade cultural, pois dizem que serão pessoas de pelo menos 40 nacionalidades diferentes dividindo cabines, cozinhas, refeitórios, bares, corredores, cotidianos; comendo, rezando, trabalhando, dormindo e sorrindo. Estou na expectativa.

A "parte" poética que sempre viveu fluida dentro do meu mundo intenso, agora vou deixá-la aflorar, num (para) fora dos meus preconceitos -que como todos têm o seu valor- e quero experimentar uma humanidade distinta da que vivi até então.

No lugar de pedir pelas caronas na estrada, vou viajar esses milhares de quilômetros de outro jeito; agora peguei uma carona remunerada em alto mar, que tal como a base empírica da caronologia, vai me trazer para um cotidiano sempre novo, sempre multidiverso, sempre constante na mudança e na forma diferenciada de desfazer as expectativas e torná-las [aceitação e gratidão], sem permanência, sem relações duradoras e não por isso fúteis, sem vínculos permanentes porque a vida não é permanente. Vou viajar de carona com meu peito, e quem vai me levar é um contrato de trabalho.

Se tudo der certo e eu conseguir fazer as coisas direitinho, o contrato em castellano diz que trabalharei por 8 meses, pode ser mais ou pode ser menos a critério da Compañia, e quando for fim de fevereiro zarpo dos portos brasileiros para a Europa, e lá vou navegar pelo Mediterrâneo, Atlântico, Mar do Norte, Fiordes, Islândia, Groenlândia. Deve ser bonito

Gosto de escrever aqui, e sei que nos próximos momentos que tiver livres (não sei se os terei no navio) volto a postar minhas notícias.

No início do ano deixei Floripa e fui me casar na Mantiqueira. 6 meses depois voltamos para Curitiba e tudo isso aconteceu. Agora o agora vai continuar sem nos esperar, e quem sabe a seleção pode ser profícua e nos encontramos no mesmo navio, ou no mesmo porto, ou no mesmo continente. Meses ou dias nos separam depois das horas. Quilômetros são imaginação flutuante

Quase me esqueci! Espero ter tempo para concluir meu doutorado em agroecologia, e viajar para a Espanha para defender a tese quando desembarcar do Grand Mistral.

E se você quiser saber mais, dá uma olhada no site: www.iberocruceros.es
Propaganda garantida do meu trabalho como camareiro ou seu tempo sem volta


Abraços na alma viajante da companhia
Daniel Lima Habib

domingo, 30 de novembro de 2008

Íris e a busca pelo pote

Encontrei

viajei muito detrás desse tempo, e agora o sol se abriu,
sinto a primavera na flor da minha idade

Faz 3 meses chove em Florianópolis,
tudo está inundado de emoções na santa e bela catarina,
milhares de milhões de vontades foram carregadas
pelo chumbo que cai do céu

a caminhada do véu se despia
enquanto o vértice corria de mim, do meu peito,
em direção a fora, e meus braços compridos não podiam segurá-lo

Via, sem sobremaneira a cor múltipla do céu-sem-nuvens que
sempre horizontava, guiava a verdade iluminogravada,
ariana (canceriana)
que vimos juntos há pouco no museu em Porto Alegre.

Arco-íris se mergulhava sem cair, porque cair é sinônimo de passado:

levantar-se é o presente

de criança seguia uma lenda,
e procurava em mim o mestre que jamais existiu,
gota d'água desterrada d'oceano: nuvem sobre o território


Procurava pela riqueza

talvez a tenha encontrado no próprio caminho, e comido,
porque satisfeito permaneci magro e integral

no fundo do céu havia um aro completo, que
se sobrepunha em movimento à verdade


percebi meu valor de riqueza quando senti que podia me amar,
me dei conta
que podia alimentar de esperança a validez do aprendizado,
e me tornei ensinamento para mim, por isso viajava

mas te conto, só te conto para continuar a conversa
sobre a semeadura de esperança
do fundo do mistério a resgatei e pretendo semear a lanço,
com berços e ornas à mão, pois o artesanato é cotidiano
e detrás do céu descobri o que há

e só quando descobri pude ver

vi o que há no fim do arco-íris, encontrei sua origem e ponto
havia lá um pote de ouro

recentemente o apanhei
chegou aos meus braços pelo segredo que conheço,
e dourada foi minha noite antes mesmo de ver o sol entre a chuva,
que mostra o arco-íris e permite a busca do seu ponto sem retorno

ponto sem retorno é de onde passei, jamais voltarei àquele lugar

aqui no campeche
vejo o brilho do sol nos verdes que sobem pilares à caixa d'água,
diante da janela do quarto onde estou,
há bicicletas e sino dos ventos, pois há ventos


os arco-íris abriram o mundo para mim


no seu fundo encontrei, e dourada é a mescla

gostaria de saber escrever
para tornar em ouro os corações dos homens e das mulheres
mas a cada um é dado um dom, e o meu dom é o de olhar

apenas gostaria de contar o que vejo ao te ver,
e gostaria de saber escrever e te tocar com as palavras,
como sou tocado por meus olhos por sentir o mundo que é


calma é a força que constrói o ideal na terra


encontrei meu pote de ouro no fim do arco-íris
terei moedas para sempre pra te dar

domingo, 26 de outubro de 2008

Contendas

Por passar o dia no quarto coincidi com minhas contendas

buscava desde ontem letras minúsculas em mim para te contar
buscava há 2 meses um jeito de dissimular o que sentia
buscava há 20 anos e mais maneiras de continuar

E porque não desisti te escrevo

a leve e mais leve sensação de que se ama
compensa as contendas

as resolve

Essa semana recebi um convite para dar uma palestra em um encontro que nem imagino o tamanho. Vai ser na bolívia e se chama fórum social ecológico mundial. Vamos ver

E calhou de me inscrever também para ir a Porto, no
seminário internacional de agroecologia.
Vai haver pessoas que conheço lá, e talvez possa mesmo
concluir a tese esse ano.
Vou gostar muito de fazer isso!

As pequenas contendas que fazem a vida ter graça colocam, diminutas, letras no meio, entre a vida e a graça, porque
nos misturamos demais com os pensamentos. E os pontos,
no lugar de costurar nossas mentes planas,
destecem os perfuros, que deixam vazar
o líquido amniótico do prazer


Agora

agora é um prazer que passa


acho que as contendas são um único jeito do agora ser antes e depois de si
de tão misturados em memóriexpectativas a respiração só enche os peitos porque está acostumada... sem prazer, a vida some e
as letras ficam maiúsculas

passei o dia no quarto, e resolvi todos os problemas do mundo

hoje já não há contendas

costurarei o agora a todos os lugares onde for, com as tendas que insolam a sombra, e farei abrigos de esperança para o sol que ilumina todos os tempos

sábado, 18 de outubro de 2008

Trans

Estive escrevendo um projeto de pesquisa esses dias

fala sobre transportes
é uma proposta de investigação, meio que um jeito de a gente se aproximar do que gostaria que existisse, através de uma pergunta. Entende?

é como perguntar:
você gosta de mim?

e, independente da resposta, a gente já se aproximou. As conseqüências da pergunta vêm sempre depois, mas perguntar já é aproximação

pesquisar é isso, prá mim: uma aproximação

e notei que para me aproximar, preciso me mexer.
o tranporte que faço desde o meu receio de interferir, até perguntar, é esse desbloqueio, livre e frágil, que se desentende do medo e salta no escuro
cai com os dois pés

onde?

aí, me transportei prá dentro da alma, e reparei que lá os sistemas de transportes são distintos. Não havia ônibus

só cicletas, multicicletas

coisinhas que ficam girando o tempo todo, e que muitas vezes passam pelo mesmo lugar, uma espécie de eterno retorno, tipo nietzsche. Reparei que o transporte do que quero até ter é meio cíclico, e que aprender continuamente envolve reproduzir o hábito de conseguir.

Amar é conseguir :)

Hoje estou amando de novo. Fazia meses que não sentia isso inteiro dentro do peito. Desde abril, acho. Há pouco (pouquinho) vi umas fotos, e me derreti todo. Vontade de estar lá longe, com a neve nos olhos. Essa hora já estará amanhecendo?

Cachos

Transportaria o amar do amor para o fundo das multicicletas, e reverteria o ciclo dela, da rodinha que faz de conta samsara

Mesmo com a intuição bonita, meio que pervejo que o desterro continua. Porque os transportes seguem transitórios, e o peito segue o caminho.

Agora que estamos em crise (oficialmente :), os transportes vão ficar mais interessantes, porque o dinheiro vai faltar por aí, e a frivolidade diminui do tamanho da honesta consciência de cada qual.

É bem bom voltar a viver, te confesso!
A anedonia mistura o transitório com o desistino, e tira o pró pósito dele mesmo. Já não há conteúdo no amor, e ele fica vácuo. Ainda bem que sobrou nesga, e tá tudo rebrotando, depois da geada e da inundação. Agora, uma primavera levemente úmida, seguida de um verão com chuvas bem distribuídas, e vento leve, brisa cálida.

A calmaria que me contém será a mesma que a sua?

Não.
A calmaria não me contém

Transpasso a verdade com o olhar, e vejo no fundo do espelho que o feitiço se quebrou
Agora, a crise instalada vai dar luz e voz aos 15 anos silenciados
e a hierarquia, ouvida, faz de novo do amor a lei

Estou a caminho, querida

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Aprender Continuamente


Os hábitos são o poder de repetirmos

Na continuação, o que segue é o que veio antes, e o inesperado é o novo, original, criativo.

Mas sempre o velho é mais experiente e o novo mais imaturo

Isso era uma pergunta.

Entre os edifícios tão cinzas, com pequenos e feios detalhes com cores cerâmicas, pastéis, o amor-pastel faz do cotidiano cinza uma continuação sempre com experiências já conhecidas, sempre maturidade esperada, sempre do mesmo jeito, tedioso, morno e sem graça.

Aprender com o novo. Isso exige criatividade consigo mesmo

Isso era uma pergunta
Inovar parece um dilema grave e precioso na arquitetura, no desenho, porque a inovação implica a imaturidade, porque a inovação implica a exigência de aprender, implica deixar o tédio e lançar-se nas cores, nas formas, nos materiais, na emoção de descobrir-se.













Lançar-se à vida, experiência sempre inovadora

Isso não é uma pergunta

Há quem diga que as nuvens tapam o sol, obscurecem a visão e nos deixam taciturnos. Concordo apenas em pequena parte, pois podemos fechar os olhos, e o cinza do céu já não nos molesta, nos restam todos os outros sentidos para viver, mesmo fechados os pequenos orifícios úmidos. Construir algo com o permanentemente conhecido não exige muito de ninguém, não exige muita experiência, nem criatividade. Tampouco oferece aprendizado.

Aprender exige lança-se

Isso é uma afirmação

As montanhas, de entre as entidades que conhecemos no nosso pequeno mundo, são os seres que mais aprendem de entre todos. E por que?
Bem... penso, sinto e vejo, de dias e de noites, que as peles e carnes das montanhas são trocadas, que o movimento sempre é diferente, que as nuvens cinzas ou brancas ou inexistentemente azuis ou negras de noite, são apenas um jeito do hálito dos bosques, campos, pedras, águas, terra e rocha. As nuvens são a parte visível do hálito do planeta. Entre as entidades que aprendem, as nuvens são as mais criativas, porque de um pequeno conjunto de fatores: sua composição e a origem do seu movimento, água e calor, elas formam todas as formas que existem, e formarão todas as formas que não existem também.













Com o céu negro há estrelas, mesmo invisíveis

Fechar os olhos à noite permite sentir a intuição do caminho, que está debaixo dos pés. Juntos, o caminho e os sentidos permitem que o tato e o equilíbro funcionem juntos, na propriocepção do movimento exploratório. Descer trilhas de montanha na floresta sem visão: propriocepção exploratória... uma delícia

Aprender não é um lançar-se, é um ir-se.

Vou a mim mesmo nesta afirmação

Aprendo com o cotidiano, e vejo meus mestres a cada dia, a cada instante.
A cada dia, a cada instante, o outro é o nosso mestre.
É quem nos ensina como devemos ser naquele momento, e nos ensina como aceitar aquele momento

Tudo tem limites, até a criatividade, até a esperança e a expectativa. Tem limites até a paz e a humildade, a liberdade, e a vida. Os limites das coisas são a sua borda, aquilo onde ela termina e vira outra, onde termina a mesa e vira o espaço cheio de ar; onde terminam os meus dedos e começam as letras desenhadas no teclado, onde termina o vidro do monitor e começa a direção da sua visão.
O limite da visão é onde a vista alcança





















Cada um dá o que tem, e isso não tem limites


Na caminhada da experiência, aprende mais quem arrisca mais, amadurece mais quem cria mais, envelhece mais quem repete mais.

Importam os padrões, e importam ainda mais as verdades que sentimos neles

Equilíbrio entre os hábitos e a sua superação, esse equilíbrio é um jeito de dizer: aprendizagem contínua

amar é aprender continuamente

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Sobre porque escrever

Ontem comprei um livro

o autor se chama Miguel, é um espanhol não sei de onde ainda, porque vou começar a ler o livro hoje.

É um livro que provavelmente faz tempo quero ler, e que até agora não o havia encontrado, mas vou começar hoje.

Seu nome é Andanzas y Visiones Españolas, e está escrito em castellano. Sinto gosto pela leitura neste idioma porque já faz 57 dias que deixei España. Parece muito tempo, e é.

Um livro sobre paisagens, que conta com olhar filosófico o que se sente quando se vai até um lugar fazer política de si mesmo.
Política, a coexistência de vontades em tentativas de realização. Vontades opostas no mesmo indivíduo.

Sempre me questionei se a palavra indivíduo servia de fato para expressar a composição múltipla das pessoas e das coisas, nas suas categorias que somos. Indivíduo, como se não pudéssemos nos dividir, como se já não fôssemos divididos ao extremo.

As expressões que usamos para distinguir elementos das paisagens é que nos tornam mais e menos individuais, paisagens interiores, paisagens de emoções e pensamentos, paisagens são teorias, do grego theorien, que faz menção a teatro, o cenário onde tudo acontece. Se diz que os elementos do teatro são o palco, o texto, os atores e o público. Uma teoria é o mesmo, uma paisagem também. Nossas paisagens interiores são a teoria dos afetos, a área da música em que se estudam os sentimentos que os sons provocam. Dizem que são universais entre as pessoas...

Andanças são pequenas caminhadas de muitas jornadas, que fazemos para desenroscar os ligamentos e obrigar os tendões e ossos a trabalharem numa cooperativa chamada organismo. Política orgânica. Olhando a paisagem do corpo vejo que há mais ecologia na saúde do que em qualquer outro ecossistema. A saúde como um ecossistema? Não... a saúde como um efeito de um ecossistema. Registro publicamente o conceito, pois é um resultado. Uma teoria que compõe publicamente os elementos do nosso teatro interior, e o resultado é a saúde-espetáculo.

A saúde é um espetáculo oscilante: os atores utilizamos o palco do corpo para criar e des envolver o nosso con texto.

Entendeu?

Simples :)
Há um texto comum, compartilhado entre nossas múltiplas vontades. Às vezes algo em nós resolve ler o texto da nossa vida em castellano, e todo o restante do nosso elenco está bastante acostumbrado a leer en portugués. Parece fácil entender, pero a ratos hace un lío, eh.
Quando as partes do ¿indivíduo? se reúnem e conseguem interpretar o contexto todas juntas, dizemos que há saúde. E quando não conseguem, dizemos que há doença. O espetáculo não acaba quando o público vai embora. O espetáculo acaba quando o palco cai, os atores o deixam, o texto deixa de ser lido, e o público sente sua falta.

Um palco em movimento, contexto de atores orgânicos e auto-apreciação. Vivam a amizade e o amor

Saúde em outras palavras é uma mistura de amor e amizade, a philia, ou filia que nos permite conversar e nos entendermos mesmo em idiomas distintos, só com os olhares e sorrisos. Filia é o que traz os orgasmos duradouros e o que traz a abundância sem repressão nos povos. A filia é quando o público não quer ir embora do teatro depois que acaba o texto.

Durante as andanzas, sempre notei que as performances são o que possibilita que a vida seja sempre e sempre criativa, bifurcações de decisões que desfazem o padrão envelhecido e que criam o padrão de aprendizagem continuada. Só envelhece quem não aprende, estou aprendendo.

Escrevo porque ando, e andar me mostra as paisagens de outros pontos de vista, me muda as vistas de cada ponto de onde olho e vejo. Olhar e ver é participar das paisagens como seu construtor. Sou como você, um construtor de paisagens interiores. Construímos a cada passo e a cada dia as paisagens do nosso cotidiano emocional e intelectual, produzindo o espetáculo-saúde ao tentar fazer do indivíduo-nós um ser múltiplo e único.

Deixo esta casa agora, que me acolheu desde que cheguei de volta à Ilha de Santa Catarina, Floripa, e aqui deixo também uma foto da sua janela






Amo as relações,
como as folhas das árvores amam
refletir o verde da luz do sol





E você, ama?