segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Chuva e grão

Parecia haver encontrado.
Sentia o vento. Por meados do sexto dia acordei pensando que havia-me tomado os pensamentos, e seguia intrigado. Sem querer, sem pensar, pensava. Um raio pequeno saía da folhagem, iluminava o tronco e os frutos, a copa contudo permanecia na penumbra. Não se sabe se era noite ou amanhecer. Penumbra. E sem a demasiada atenção de quem perscruta, ouvi claramente os pássaros. É certo que a floresta estava viva.

Debaixo da copa o pequeno raio movia lentamente seu feixe para fora e erguia um caleidoscópio na folhagem, como luz que emana da raiz, fazia os insetos cegos meras testemunhas do improvável: Eles sentem calor, concluo.
Raio cresce, medida da árvore que é antiga, espessa folhagem nos pés. Erguia lentamente a penumbra como quem levanta a noite acima dos cabelos, e diluía a tinta da noite em claror e luz. Os insetos viam. Por meados do sexto dia queria pensar e pensava. Acordei, sentia o vento. Encontrara, era certo.
Longos cachos morenos de luz flutuavam as folhas, como num rio castanho de montanha que leva o outono para o mar. Essa luz morena soprava o bosque, misturava a fuligem antiga com a fertilidade nova. Grão. Sem forçar, germinava ao subir para iluminar os frutos e o dorso das árvores. Pareceria sofrer sem chorar, os cachos eram entalhes no vento, cachos de luz castanha, luz de raiz, sol nascente? Não. O sol não nasce, o sol se encontra. Para nascer é preciso haver morrido, é preciso, como de costume, degenerar-se de eternidade em eternidade como o açúcar amolece o café. Até o café. Os olhos dessa luz não tinha visto, pensava.
E por haver encontrado, concluo, era digno o movimento natural de buscar a terra, encontrar a terra, deixar o ar que não toca o monte e, nuvem, chover-me fertilização. Sim. Fertilização. Toda floresta precisa de chuvas, toda verdade precisa da umidade, líquido primordial que une o sólido e o aéreo, rarefeito. Montanha e tempestade, olhos de madeira, cachos de luz. Sentia o vento. Era hora de chover.
Estátuas de todo sentimento, vidas passadas, terras novas, origens seguidas, cantava o poema porque a chuva é um canto, cada gota-palavra é melodia. Se da tinta o papel é suporte, da chuva o solo é útero, barriga, gestação.
Havia encontrado, pensei. Sorria.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Compreensão extrapola todo pensamento

Pela mais absoluta falta de inspiração, escrevo esse texto. Sentindo a pressão de ter demasiadas sementes armazenadas dentro de um saco escuro, mesmo sem ver a terra onde plantá-las, escrevo esse texto. Houve época em que a filosofia se me saía inteira e sem frescuras pelos poros, mas já não é assim. Talvez me tenha tornado tão arrogante que me identifiquei com a profissão de 'filósofo', ao ponto de deixar de produzir filosofia para cultivar o (péssimo) hábito de dizer a mim mesmo que sou isso. Talvez fosse melhor ter outra profissão, uma profissão certamente menos nobre e mais reconhecida: pensador. Mas dizem na nossa época que -profissional é a pessoa que exerce um trabalho cotidianamente. Nesse caso já não sou pensador, pelo menos não no sentido da filosofia, porque isso, reconheço que já não faço há uns anos. Apenas remôo os pensamentos que se me vieram mais anos atrás, desde o fim da adolescência, e que cultivei e burilei com carinho e dedicação, enquanto caminhava entre uma busca e outra.
Mas talvez esse texto seja muito mais um desabafo vivo do que um pensamento morto. Talvez, seja mais o escape do vapor que emerge da caldeira, do que uma piscina de águas cristalinas, filtradas e aquecidas. Talvez eu seja muito menos um filósofo, e muito mais um homem querendo contar uma história.
Pois bem. É que eu pensava sobre a Unidade. Pensava que tinha alguma coisa estranha sobre esse conceito, porque via tanta gente explicá-lo como se fosse simples e geralmente ninguém o entendia, como se fosse complicado. Tentei entendê-lo antes de explicar, aí descobri que os dedos podem ajudar, melhor que um desenho :)
Essa descoberta foi mais ou menos assim: notei que quando tocamos a mão de outra pessoa, aproximamos algo mais do que apenas o pensamento; então perguntamos o que separa as mãos, e a pessoa responde algo, seja o que for, ar, nada, vento, matéria, espaço, vazio... retiramos o toque e perguntamos então o que separa, e dessa vez a pessoa responde algo diferente, geralmente "ar".

 Aí tocamos novamente, e com um sorriso perguntamos: o que separa meu dedo do seu? A pessoa sorri meio desconcertada como se a pergunta fosse descabida, e diz: nada...
então você sorri tranquilx e comenta, mas e esse nada, ele é alguma coisa ou ele não é alguma coisa?
ela olha e diz uma coisa, ou diz a outra, e você contesta dizendo: mas o nada, ele é algo ou ele não é nada? porque se for algo, o que seria? porque 'nada' não é o nome que damos prás coisas que não são nenhuma coisa?
aí a pessoa comenta: bom, então o que tem entre os nossos dedos é algo... e você continua, insistente: e esse algo que tem entre o meu dedo e o seu, ele está junto ou separado do seu dedo?
A pessoa responde.
E você pergunta: então, o que tem entre esse "algo" e o seu dedo? e assim segue. O movimento continua até a pessoa notar que não há algo, ou seja, há um "não algo" que não separa as coisas, mas as junta. Ou seja, o "nada" é aquilo que junta as coisas, e não aquilo que as separa.

Eu achava esse pensamento legal e importante, e gostava de brincar disso com as pessoas. Fiz muitas bonitas amizades compartilhando esse pensamento!

Descobria também que a Unidade se manifestava nos grupos, nas organizações, nas corporações, nos 'corpore', em tudo o que não é único/individual/singular, mas coletivo. E percebia que a Unidade não era meramente o que juntava as coisas, mas aquilo que não conseguimos chamar de nenhum nome ao nos referirmos a tudo o que existe. E nesse caso, acho que o nome que foi mais utilizado para se referir à Unidade e por isso o mais vulgarizado dentre todos, foi o nome 'Deus'.
Uma época estudava um pouco alguns paradoxos, aquelas coisas que acontece quando levamos um predicado ao infinito, e ele sucumbe à propria nominação/definição. E descobri que tinha aparecido prá mim um jeito de encontrar paradoxos, achei legal :D
era assim: sempre que a gente quer que algo mostre até onde vai, usamos como substantivo da pergunta a mesma coisa que esperamos saber. Por exemplo assim, ó:
"qual é a Unidade da Unidade?", ou então, essas outras duas, as primeiras que me apareceram (em setembro de 1997 e outubro de 1998): "qual é a dúvida da dúvida?" e "qual é a função da função?". Sobre essa da dúvida, demorei 3 semanas para entender a pergunta. Aconteceu que passava todos os dias, caminhava dezenas de quilômetros por dia tentando decifrar o sentido dessa pergunta que se me tinha aparecido e, não sem esforço, consegui entender alguma coisa dessa pergunta. O impacto foi tremendo, porque ao entender a pergunta, a resposta apareceu espontaneamente. Foi uma revolução, senti todos os patamares sendo varridos, um imenso edifício intelectual e sensorial sendo totalmente despedaçado desde o topo, caindo por sobre a base, como uma pirâmide invertida, que tem sua base, uma única pedra, ruída por um paradoxo. Foi um ano perfeitamente curioso o ano de 1998, enquanto me surpreendia com a vastidão daquele entendimento, notei durante as caminhadas que a compreensão extrapola todo pensamento.

escrever

sonhei que obedecia. tinha deixado de ser teimoso
meu irmão há 6 anos me disse que eu devia ser escritor, e sonhei que o obedecia.
ainda há pouco lavava umas roupas para evaporar no sol e senti essa vontade, vir escrever
já devia
faz um bom tempo que acumulo palavras sem deixá-las sair, como adolescentes presos em casa em noite de show.

concluir ou desistir?

assim de cara sei que parece uma oposição, como o perímetro parece ser oposto à área, mas quis que não fosse e apareceu esse argumento

desistir faz parte de concluir, como descansar faz parte de continuar
descansar da terra recompõe o organismo da terra, os pretos do solo que esvaem pelas folhas, frutos maduros emagrecem o chão. precisamos engordá-lo de novo

descansar ou seguir

me lembro ainda, tinha 14 anos, vinha para cá em Patrocínio do Muriaé e sempre renotava que os altos de morros têm mais florestas que os vales planos, e que por alguma razão lá os verdes são felizes. Talvez como a família que se briga em todos os natais que passam juntos, talvez assim também essa ambiguidade esteja presa na terra como vento está preso no ar

a liberdade do vento é o ar
pois aqui no fundo do vale sem vento os verdes têm insetos, plantam florestas para comerem porque a grama é pobre, insetos são muitos e gostam das riquezas, levam suas riquezas para onde vão e montam civilizações. Pode demorar e alguns se perdem no caminho, embasbacados com a luz ofuscante dos postes-casas, perecem ao grudar na pele suada de qualquer um. Mesmo que mordam. O ar é grande.

Jamais pensei em desistir de contar histórias para as pessoas. Acho que cada ser humano tem algumas coisas que o compõe, uma dessas-minhas é contar histórias. Na grandeza do ar as ambiguidades somem porque se expoõe, exponenciam. Tudo voa levemente, cai pesado quando se satura. O vento desiste, o ar não.
Crescer como árvore para tocar o céu, aquele ali, céu que tem nuvem de vez em quando, que se seguirmos em fila indiana podemos continuar até chegar a lugar algum. Fico pensando que as folhas são os pára-quedas das árvores, para diminuir a velocidade de subida; e no inverno algumas caem para cobrir a terra, porque ela tem frio. Verdade é quando gostamos sem ninguém ver.
Acho que as raízes gostam de verdade de abraçar.

Uma vez fiz filosofia, pensei bastante enquanto caminhava e depois me formei. Aí fui morar em outro lugar mas já era diferente. Acho que a idade ajudava. Depois que me mudei de lá de antes acho que a cabeça ficou cansada e resolveu descansar. Estava descansando, viu :)

A questão com os relógios é que eles só marcam os horários, não marcam o que queremos com eles. Se um dia inventarem um relógio que mede o que precisamos fazer, acho que vai achar outro jeito de aparecer

sonhei mesmo que virava escritor, depois de tanta ambiguidade entendi que a gente só descansa quando para. Acho que desde que me desfilosofei eu não parava. Ficava na tão-ânsia de concluir que seguia sem olhar, ateei incêndios tentando apagá-los

sábado, 6 de novembro de 2010

sombralguma

tentei sorrir pelo tempo disponível
trocava de pele cada instante em que a mente se acalmava
mesmo sentindo insensato o apelo da procura
continuava

tornar a sorrir pelo tempo
e disponível refazia cada ato
comentava o caminho da censura
e voltava

repetia

repetia que ser disponível pelo tempo
é sorrir a mente trocando cada instante pela pele
refazendo em cada ato o frescor da compostura
verdade

nem menos verdade que a tortura
é o tempo que se leva prá sorrir,
quando certo é o fim do sofrimento
capaz de arrancar da dor
o alento

tentava sorrir por todo o tempo
desde que começava a zoar,
força do vento roçava minha orelha
e trazia à minha mente ouvido
o alimento

o alimento dos olhos é a sombra
porque quando a retiramos é que a fome vem
cantada ou desmaiada pelo oculto
a sombra é o alimento do olhar
ainda bem

consegui sorrir por tempo o todo
e o olhar iluminou a descensura
tocou com o vento a mente meu ouvido
cantada a sombra foi-se ao tempo meu,
desconhecido

verdade sem nenhuma formatura

e sigo

sorrindo

trago até meus olhos teu umbigo
e faço o sol nascer sem sombra alguma

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Navegante

Como está?

Hoje foi uma sexta-feira que ainda não acabou. Conjugo meus tempos porque já faz um ano que não escrevo e me misturo neles.

Recebi pela manhã uma ligação, confirmação de um trabalho. Esperava por ela e por ele desde o último dia 11/11. Do portal surgiu viagem múltipla sem sair do lugar, mais este paradoxo flutuante.

Vou trabalhar num lugar chamado Mistral. Dia 11 do mês passado olhei nos olhos a Monalisa, que me falou sobre ele, esse trabalho, mundo flutuante, cidade submersa no paraíso da modernidade.

Vou trabalhar num cruzeiro. É um navio de 216 metros de comprimento por 28,8 metros de largura máxima. Nele cabem 1700 passageiros, e junto comigo vão trabalhar mais 669 pessoas. O navio tem 624 cabines para pessoas de todos os gostos que aceitem pagar um pouco caro para um passeio de 3, 7 ou 11 dias pelo mar, visitando portos e outros lugares interessantes da Vontade Moderna.

Deve ser louco esse lugar.

Lá eu vou trabalhar 12 horas por dia todos os dias por no mínimo 6 meses, das 7 da manhã até as 23h da noite, que totalizam 16 horas, e o sono que faltar vou encaixar nessas outras poucas horas de sobra.

E por que vou trabalhar num navio de cruzeiro?

Bem, acho que cansei de tentar fazer as coisas aqui, sabe? Trabalhei duro e honestamente o ano todo, ganhei 2 calotes, mais de uma dúzia de promessas de trabalho, e saí com um prejuízo estimado de mais de 5000. Sem contar o fato de ter ganho um pouco menos de três mil reais durante os onze meses de trabalho desse ano, acho que o principal motivo de eu ir viajar é que minha qualificação profissional como filósofo, educador, comunicador e agroecólogo não está à altura do país, e por isso percebo que devo ir embora. Acho que no navio vou conseguir manter melhor minhas condições básicas de sobrevivência no mundo, mundo moderno.

Longe de parecerem com o que se chama de "justiça" na cidade grande, o trabalho no navio será penoso, duro, extenuante e no fim das contas talvez recompensador. Os relatos das pessoas que conheci me dizem isso, e meus relatos espero que digam também, para concordar e viver.

Mas além da delícia que deve ser viajar por pelo menos 6 meses numa cidade flutuante de 6000m2 arrumando camas e limpando banheiros, creio que ver de vez em quando o sol nascer e se por no oceano será maravilhoso. Tem também a parte poética da diversidade cultural, pois dizem que serão pessoas de pelo menos 40 nacionalidades diferentes dividindo cabines, cozinhas, refeitórios, bares, corredores, cotidianos; comendo, rezando, trabalhando, dormindo e sorrindo. Estou na expectativa.

A "parte" poética que sempre viveu fluida dentro do meu mundo intenso, agora vou deixá-la aflorar, num (para) fora dos meus preconceitos -que como todos têm o seu valor- e quero experimentar uma humanidade distinta da que vivi até então.

No lugar de pedir pelas caronas na estrada, vou viajar esses milhares de quilômetros de outro jeito; agora peguei uma carona remunerada em alto mar, que tal como a base empírica da caronologia, vai me trazer para um cotidiano sempre novo, sempre multidiverso, sempre constante na mudança e na forma diferenciada de desfazer as expectativas e torná-las [aceitação e gratidão], sem permanência, sem relações duradoras e não por isso fúteis, sem vínculos permanentes porque a vida não é permanente. Vou viajar de carona com meu peito, e quem vai me levar é um contrato de trabalho.

Se tudo der certo e eu conseguir fazer as coisas direitinho, o contrato em castellano diz que trabalharei por 8 meses, pode ser mais ou pode ser menos a critério da Compañia, e quando for fim de fevereiro zarpo dos portos brasileiros para a Europa, e lá vou navegar pelo Mediterrâneo, Atlântico, Mar do Norte, Fiordes, Islândia, Groenlândia. Deve ser bonito

Gosto de escrever aqui, e sei que nos próximos momentos que tiver livres (não sei se os terei no navio) volto a postar minhas notícias.

No início do ano deixei Floripa e fui me casar na Mantiqueira. 6 meses depois voltamos para Curitiba e tudo isso aconteceu. Agora o agora vai continuar sem nos esperar, e quem sabe a seleção pode ser profícua e nos encontramos no mesmo navio, ou no mesmo porto, ou no mesmo continente. Meses ou dias nos separam depois das horas. Quilômetros são imaginação flutuante

Quase me esqueci! Espero ter tempo para concluir meu doutorado em agroecologia, e viajar para a Espanha para defender a tese quando desembarcar do Grand Mistral.

E se você quiser saber mais, dá uma olhada no site: www.iberocruceros.es
Propaganda garantida do meu trabalho como camareiro ou seu tempo sem volta


Abraços na alma viajante da companhia
Daniel Lima Habib

domingo, 30 de novembro de 2008

Íris e a busca pelo pote

Encontrei

viajei muito detrás desse tempo, e agora o sol se abriu,
sinto a primavera na flor da minha idade

Faz 3 meses chove em Florianópolis,
tudo está inundado de emoções na santa e bela catarina,
milhares de milhões de vontades foram carregadas
pelo chumbo que cai do céu

a caminhada do véu se despia
enquanto o vértice corria de mim, do meu peito,
em direção a fora, e meus braços compridos não podiam segurá-lo

Via, sem sobremaneira a cor múltipla do céu-sem-nuvens que
sempre horizontava, guiava a verdade iluminogravada,
ariana (canceriana)
que vimos juntos há pouco no museu em Porto Alegre.

Arco-íris se mergulhava sem cair, porque cair é sinônimo de passado:

levantar-se é o presente

de criança seguia uma lenda,
e procurava em mim o mestre que jamais existiu,
gota d'água desterrada d'oceano: nuvem sobre o território


Procurava pela riqueza

talvez a tenha encontrado no próprio caminho, e comido,
porque satisfeito permaneci magro e integral

no fundo do céu havia um aro completo, que
se sobrepunha em movimento à verdade


percebi meu valor de riqueza quando senti que podia me amar,
me dei conta
que podia alimentar de esperança a validez do aprendizado,
e me tornei ensinamento para mim, por isso viajava

mas te conto, só te conto para continuar a conversa
sobre a semeadura de esperança
do fundo do mistério a resgatei e pretendo semear a lanço,
com berços e ornas à mão, pois o artesanato é cotidiano
e detrás do céu descobri o que há

e só quando descobri pude ver

vi o que há no fim do arco-íris, encontrei sua origem e ponto
havia lá um pote de ouro

recentemente o apanhei
chegou aos meus braços pelo segredo que conheço,
e dourada foi minha noite antes mesmo de ver o sol entre a chuva,
que mostra o arco-íris e permite a busca do seu ponto sem retorno

ponto sem retorno é de onde passei, jamais voltarei àquele lugar

aqui no campeche
vejo o brilho do sol nos verdes que sobem pilares à caixa d'água,
diante da janela do quarto onde estou,
há bicicletas e sino dos ventos, pois há ventos


os arco-íris abriram o mundo para mim


no seu fundo encontrei, e dourada é a mescla

gostaria de saber escrever
para tornar em ouro os corações dos homens e das mulheres
mas a cada um é dado um dom, e o meu dom é o de olhar

apenas gostaria de contar o que vejo ao te ver,
e gostaria de saber escrever e te tocar com as palavras,
como sou tocado por meus olhos por sentir o mundo que é


calma é a força que constrói o ideal na terra


encontrei meu pote de ouro no fim do arco-íris
terei moedas para sempre pra te dar

domingo, 26 de outubro de 2008

Contendas

Por passar o dia no quarto coincidi com minhas contendas

buscava desde ontem letras minúsculas em mim para te contar
buscava há 2 meses um jeito de dissimular o que sentia
buscava há 20 anos e mais maneiras de continuar

E porque não desisti te escrevo

a leve e mais leve sensação de que se ama
compensa as contendas

as resolve

Essa semana recebi um convite para dar uma palestra em um encontro que nem imagino o tamanho. Vai ser na bolívia e se chama fórum social ecológico mundial. Vamos ver

E calhou de me inscrever também para ir a Porto, no
seminário internacional de agroecologia.
Vai haver pessoas que conheço lá, e talvez possa mesmo
concluir a tese esse ano.
Vou gostar muito de fazer isso!

As pequenas contendas que fazem a vida ter graça colocam, diminutas, letras no meio, entre a vida e a graça, porque
nos misturamos demais com os pensamentos. E os pontos,
no lugar de costurar nossas mentes planas,
destecem os perfuros, que deixam vazar
o líquido amniótico do prazer


Agora

agora é um prazer que passa


acho que as contendas são um único jeito do agora ser antes e depois de si
de tão misturados em memóriexpectativas a respiração só enche os peitos porque está acostumada... sem prazer, a vida some e
as letras ficam maiúsculas

passei o dia no quarto, e resolvi todos os problemas do mundo

hoje já não há contendas

costurarei o agora a todos os lugares onde for, com as tendas que insolam a sombra, e farei abrigos de esperança para o sol que ilumina todos os tempos