o autor se chama Miguel, é um espanhol não sei de onde ainda, porque vou começar a ler o livro hoje.
É um livro que provavelmente faz tempo quero ler, e que até agora não o havia encontrado, mas vou começar hoje.
Seu nome é Andanzas y Visiones Españolas, e está escrito em castellano. Sinto gosto pela leitura neste idioma porque já faz 57 dias que deixei España. Parece muito tempo, e é.
Um livro sobre paisagens, que conta com olhar filosófico o que se sente quando se vai até um lugar fazer política de si mesmo.
Política, a coexistência de vontades em tentativas de realização. Vontades opostas no mesmo indivíduo.
Sempre me questionei se a palavra indivíduo servia de fato para expressar a composição múltipla das pessoas e das coisas, nas suas categorias que somos. Indivíduo, como se não pudéssemos nos dividir, como se já não fôssemos divididos ao extremo.
As expressões que usamos para distinguir elementos das paisagens é que nos tornam mais e menos individuais, paisagens interiores, paisagens de emoções e pensamentos, paisagens são teorias, do grego theorien, que faz menção a teatro, o cenário onde tudo acontece. Se diz que os elementos do teatro são o palco, o texto, os atores e o público. Uma teoria é o mesmo, uma paisagem também. Nossas paisagens interiores são a teoria dos afetos, a área da música em que se estudam os sentimentos que os sons provocam. Dizem que são universais entre as pessoas...
Andanças são pequenas caminhadas de muitas jornadas, que fazemos para desenroscar os ligamentos e obrigar os tendões e ossos a trabalharem numa cooperativa chamada organismo. Política orgânica. Olhando a paisagem do corpo vejo que há mais ecologia na saúde do que em qualquer outro ecossistema. A saúde como um ecossistema? Não... a saúde como um efeito de um ecossistema. Registro publicamente o conceito, pois é um resultado. Uma teoria que compõe publicamente os elementos do nosso teatro interior, e o resultado é a saúde-espetáculo.
A saúde é um espetáculo oscilante: os atores utilizamos o palco do corpo para criar e des envolver o nosso con texto.
Entendeu?
Simples :)
Há um texto comum, compartilhado entre nossas múltiplas vontades. Às vezes algo em nós resolve ler o texto da nossa vida em castellano, e todo o restante do nosso elenco está bastante acostumbrado a leer en portugués. Parece fácil entender, pero a ratos hace un lío, eh.
Quando as partes do ¿indivíduo? se reúnem e conseguem interpretar o contexto todas juntas, dizemos que há saúde. E quando não conseguem, dizemos que há doença. O espetáculo não acaba quando o público vai embora. O espetáculo acaba quando o palco cai, os atores o deixam, o texto deixa de ser lido, e o público sente sua falta.
Um palco em movimento, contexto de atores orgânicos e auto-apreciação. Vivam a amizade e o amor
Saúde em outras palavras é uma mistura de amor e amizade, a philia, ou filia que nos permite conversar e nos entendermos mesmo em idiomas distintos, só com os olhares e sorrisos. Filia é o que traz os orgasmos duradouros e o que traz a abundância sem repressão nos povos. A filia é quando o público não quer ir embora do teatro depois que acaba o texto.
Durante as andanzas, sempre notei que as performances são o que possibilita que a vida seja sempre e sempre criativa, bifurcações de decisões que desfazem o padrão envelhecido e que criam o padrão de aprendizagem continuada. Só envelhece quem não aprende, estou aprendendo.
Escrevo porque ando, e andar me mostra as paisagens de outros pontos de vista, me muda as vistas de cada ponto de onde olho e vejo. Olhar e ver é participar das paisagens como seu construtor. Sou como você, um construtor de paisagens interiores. Construímos a cada passo e a cada dia as paisagens do nosso cotidiano emocional e intelectual, produzindo o espetáculo-saúde ao tentar fazer do indivíduo-nós um ser múltiplo e único.
Deixo esta casa agora, que me acolheu desde que cheguei de volta à Ilha de Santa Catarina, Floripa, e aqui deixo também uma foto da sua janela

Amo as relações,
como as folhas das árvores amam
refletir o verde da luz do sol
E você, ama?
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