Como está?
Hoje foi uma sexta-feira que ainda não acabou. Conjugo meus tempos porque já faz um ano que não escrevo e me misturo neles.
Recebi pela manhã uma ligação, confirmação de um trabalho. Esperava por ela e por ele desde o último dia 11/11. Do portal surgiu viagem múltipla sem sair do lugar, mais este paradoxo flutuante.
Vou trabalhar num lugar chamado Mistral. Dia 11 do mês passado olhei nos olhos a Monalisa, que me falou sobre ele, esse trabalho, mundo flutuante, cidade submersa no paraíso da modernidade.
Vou trabalhar num cruzeiro. É um navio de 216 metros de comprimento por 28,8 metros de largura máxima. Nele cabem 1700 passageiros, e junto comigo vão trabalhar mais 669 pessoas. O navio tem 624 cabines para pessoas de todos os gostos que aceitem pagar um pouco caro para um passeio de 3, 7 ou 11 dias pelo mar, visitando portos e outros lugares interessantes da Vontade Moderna.
Deve ser louco esse lugar.
Lá eu vou trabalhar 12 horas por dia todos os dias por no mínimo 6 meses, das 7 da manhã até as 23h da noite, que totalizam 16 horas, e o sono que faltar vou encaixar nessas outras poucas horas de sobra.
E por que vou trabalhar num navio de cruzeiro?
Bem, acho que cansei de tentar fazer as coisas aqui, sabe? Trabalhei duro e honestamente o ano todo, ganhei 2 calotes, mais de uma dúzia de promessas de trabalho, e saí com um prejuízo estimado de mais de 5000. Sem contar o fato de ter ganho um pouco menos de três mil reais durante os onze meses de trabalho desse ano, acho que o principal motivo de eu ir viajar é que minha qualificação profissional como filósofo, educador, comunicador e agroecólogo não está à altura do país, e por isso percebo que devo ir embora. Acho que no navio vou conseguir manter melhor minhas condições básicas de sobrevivência no mundo, mundo moderno.
Longe de parecerem com o que se chama de "justiça" na cidade grande, o trabalho no navio será penoso, duro, extenuante e no fim das contas talvez recompensador. Os relatos das pessoas que conheci me dizem isso, e meus relatos espero que digam também, para concordar e viver.
Mas além da delícia que deve ser viajar por pelo menos 6 meses numa cidade flutuante de 6000m2 arrumando camas e limpando banheiros, creio que ver de vez em quando o sol nascer e se por no oceano será maravilhoso. Tem também a parte poética da diversidade cultural, pois dizem que serão pessoas de pelo menos 40 nacionalidades diferentes dividindo cabines, cozinhas, refeitórios, bares, corredores, cotidianos; comendo, rezando, trabalhando, dormindo e sorrindo. Estou na expectativa.
A "parte" poética que sempre viveu fluida dentro do meu mundo intenso, agora vou deixá-la aflorar, num (para) fora dos meus preconceitos -que como todos têm o seu valor- e quero experimentar uma humanidade distinta da que vivi até então.
No lugar de pedir pelas caronas na estrada, vou viajar esses milhares de quilômetros de outro jeito; agora peguei uma carona remunerada em alto mar, que tal como a base empírica da caronologia, vai me trazer para um cotidiano sempre novo, sempre multidiverso, sempre constante na mudança e na forma diferenciada de desfazer as expectativas e torná-las [aceitação e gratidão], sem permanência, sem relações duradoras e não por isso fúteis, sem vínculos permanentes porque a vida não é permanente. Vou viajar de carona com meu peito, e quem vai me levar é um contrato de trabalho.
Se tudo der certo e eu conseguir fazer as coisas direitinho, o contrato em castellano diz que trabalharei por 8 meses, pode ser mais ou pode ser menos a critério da Compañia, e quando for fim de fevereiro zarpo dos portos brasileiros para a Europa, e lá vou navegar pelo Mediterrâneo, Atlântico, Mar do Norte, Fiordes, Islândia, Groenlândia. Deve ser bonito
Gosto de escrever aqui, e sei que nos próximos momentos que tiver livres (não sei se os terei no navio) volto a postar minhas notícias.
No início do ano deixei Floripa e fui me casar na Mantiqueira. 6 meses depois voltamos para Curitiba e tudo isso aconteceu. Agora o agora vai continuar sem nos esperar, e quem sabe a seleção pode ser profícua e nos encontramos no mesmo navio, ou no mesmo porto, ou no mesmo continente. Meses ou dias nos separam depois das horas. Quilômetros são imaginação flutuante
Quase me esqueci! Espero ter tempo para concluir meu doutorado em agroecologia, e viajar para a Espanha para defender a tese quando desembarcar do Grand Mistral.
E se você quiser saber mais, dá uma olhada no site: www.iberocruceros.es
Propaganda garantida do meu trabalho como camareiro ou seu tempo sem volta
Abraços na alma viajante da companhia
Daniel Lima Habib